riomar melo prosa e verso
O tempo não pára no porto,não apita na curva,não espera ninguém.
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Cruz do pago


Meio assim como uma queixa
que ao largo foi deixada,
de algum combate extraviada
na imensidão da planura,
repousa a triste figura
de velha cruz falquejada
que assinala a terra içada
de uma humilde sepultura!

Cerne rijo, como a fibra
do guasca que ali descansa,
no leito de grama mansa
exposta à chuva e o vento,
velha cruz, mudo lamento
de quem perdeu a esperança
e apagou-se da lembrança
nas trevas do esquecimento!

Revives, cruz do meu pago,
nessa imensa soledade
a passada austeridade
dos índios que te plantaram
depois que te falquejaram,
num gesto de humanidade
e as sementes da saudade
ao teu redor espalharam!

E junto a terra pisada,
onde o capim se termina,
desengonçada se inclina
rude coroa esquecida,
tristonha e descolorida,
recuerdo que alguma china
deixou na cruz campesina
um sinal de despedida!

Ninguém sabe a quem abrigas
nem te lembra a procedência,
eu me volto em reverência
quando chego junto a ti,
cruz do campo onde nasci
lembrando num temor vago
outros filhos do meu pago
que morreram por aí...

Na humildade do teu vulto
até as penas são rédeas
na evocação da tragédia
que te deixou como rasto,
e o teu cerne velho gasto
que ao léu do tempo reluz,
é um mistério, velha cruz,
rodeada de mata-pasto!

Vejo em ti, cruz sem legenda
plantada em rude munchão,
a própria cruz do rincão
tristonha, humilde e vencida,
como planta ressequida
na inclemência do verão,
que nesse palmo de chão,
entre mágoas e protestos,
abriga os últimos restos
da crioula tradição!!

 
jayme caetano braum
Enviado por RIOMAR MELO em 19/09/2018
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